abr | mai | jun | jul
ago | set | out | nov
diário 1 | diário 2 | diário 3 | diário 4

Chegamos em Salvador !

Aqui se respira, ouve e vive cultura. Teatros, oficinas de arte e centros culturais se disseminam por toda capital, mas esse ar fica mais denso no Pelourinho, um mundo onde todos podem acontecer, mostrar sua cara e sua arte.

Da baiana de acarajé aos palhaços seresteiros da madrugada, foi lá que começamos a encontrar nossas riquezas.


O Pelô, para os íntimos, foi em parte reformado e preenchido por charmosos restaurantes, lojinhas e galerias distribuídas nas recém-coloridas casinhas. Muito agradável. Mas essa beleza teve seu preço: parte dos moradores foram literalmente expulsos de suas casas para que se realizasse a restauração desse centro histórico, dividindo opiniões sobre a benfeitoria. Um bêbado disse que a Bahia é um mundo, onde ACM é o rei. Talvez ainda lhe restasse um pouco de sobriedade... O outro lado do Pelô continua tentando sobreviver entre a riqueza e a pobreza.

Ao chegarmos, o som de uma roda de samba nos atraiu, assim como muitos outros que lá estavam, contagiados pelo ritmo. Seguindo pelas ruas tortuosas, descobrimos um super-herói do Pelô: Jaime Figura.

Trata-se de um artista plástico que criou uma fantasia de metal e borracha, há 12 anos sua segunda pele e segunda personalidade. Não mostra o rosto a ninguém e não tem espelhos em casa. Respira por um orifício e tem 40% de visão dentro da máscara. O motivo? "Tenho que mostrar a minha arte e não quero mostrar meu rosto" - justifica.


Conversamos também com três garis, colegas de trabalho há 25 anos. Varrem o Pelô na madrugada e conhecem cada movimento e cada pessoa da boemia. Um deles nunca teve filhos porque diz que a nova geração não dá valor aos pais. Outro chegou a morar em São Paulo por um bom tempo, mas voltou por causa da violência.

Estávamos sentados na calçada conversando com eles e avistamos outra movimentação na rua: um grupo de seresteiros vestidos de coringas, cantando antigas canções carnavalescas. Encantador. "Paroano sai milhó" há 37 anos espalha alegria pelas ruas do Pelô, tocando o coração de belas jovens, saudosos velhinhos, emocionados poetas boêmios, bêbados, crianças, o mundo...

Tivemos a oportunidade de saber grande parte da história deles numa mesa de bar. Nos ofereceram um prato típico da cozinha baiana, o arrumadinho: pimentão, cebola e tomate picados com farinha e carne de sol. Delicioso.

Quando aqui chegamos, tínhamos a ingênua intenção de jantar, dar uma volta e ir embora à meia-noite. O palco do Pelô nos envolveu com sua magia e retardou nossa partida: voltamos pra casa ao amanhecer, com muito material pra mostrar e impressionados com as pessoas que cruzaram nosso caminho e nos ajudam a montar essa "peça" chamada Trilha.