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Alcântara - 31 de agosto


Lembram-se daquele cais de São Luís onde os barcos aguardam a maré encher no chão seco, com o se estivessem encalhados? Foi nesse mesmo cais que entramos num Bate-vento e navegamos rumo a Alcântara, a uma hora de barco da capital. O mar estava muito agitado e foi um alívio chegar em terra firme, onde um suave reggae deu as boas-vindas e apagou a mareação.

Uma ladeira de pedras margeada pelas primeiras ruínas históricas nos conduziu até a praça da igreja matriz.

A cena desta tarde foi uma amostra da envolvente aura da cidade: um extenso gramado cercado de casarões antigos onde crianças jogavam bola à esquerda, um grupo tocava sons regionais na sombra da maior árvore da praça, cercada de mesinhas do bar, e à direita as maravilhosas ruínas da igreja, cartão postal de Alcântara.

Para descobrir seu passado, deixamos de lado as informações dos livros de história, que insistem em repetir a versão dos senhores brancos e fizemos questão de que um nativo descendente de escravos, o impagável Luís Moraes, nos conduzisse pelas calçadas de pedras de cantaria.

E a aula começou assim, com uma explicação sobre o calçamento, de fundo preto com losangos brancos: "As pedras pretas são as 'cabeças de nego', porque os escravos africanos tinham o cabelo bem ralinho, quase nada, tendo a cabeça lisa, parecida com a pedra. Foram tiradas das casas em ruínas para construir a rua. As brancas são de cantaria, vieram de Portugal, foram usadas para construir uma barragem no mar. Quando a barragem foi destruída, usaram as pedras para o chão."

Notamos que, apesar de haver energia elétrica na cidade inteira, não existem postes nem fios na rua, o que contribui para sua beleza. Diante dessa observação, Luís falou que antigamente a luz era produzida por geradores, que acendiam às 18hs e apagavam à meia noite.

"Era legal quando o gerador dava prego de três, quatro meses, Alcântara ficava como um carvão...Era lindo! Todo mundo no preto. Incrível isso... Só dava para reconhecer as pessoas em dias de lua perfeita!"

Só a falta de luz igualava os habitantes de Alcântara, formados pela alta sociedade maranhense do século XIX e por seus escravos, muitos deles. Na visão de Luís, os brancos "eram pessoas que moravam em casas de três andares, numa torre." E como eram essas pessoas? "Talvez mais bonitas do que as outras porque moravam no alto." E essas pessoas bonitas quem amarravam no pelourinho os antepassados do nosso historiador nato.

Naquela época, o então Imperador Dom Pedro II pretendia passar uma temporada na cidade, o que provocou uma briga entre as duas famílias mais importantes. Cada uma ergueu um palácio, dos quais hoje só restam algumas paredes. O Imperador desistiu da visita e mandou alguns presentes para os ex-futuros-anfitriões. A briga não foi só entre brancos! Luís explicou sobre a disputa de dois irmãos escravos, cada um responsável pela construção de um palácio, que competiram entre si para ver quem fazia o palácio maior e mais bonito. "No fim o imperador não veio morar em nenhuma das casas. Só fizeram para gastar energia dos negros."

Neste momento, no pátio da igreja, acontecia o Tambor de Crioula, uma grande festa do folclore maranhense. É uma homenagem ao santo negro, o pagamento de promessas por pedidos atendidos. O grupo do tambor é formado pelos tocadores e pelas dançarinas, ou coristas, que vestem saias longas e coloridas e rodam em frente aos três tambores: o crivador, menor de todos, o meião e o grande. Os instrumentos, feitos de cano ou troncos, com couro de boi, são afinados numa fogueira pelos músicos, que tocam em estado de transe, abastecidos apenas pela cachaça, até o meio do dia seguinte.

No seguimento de pesquisas sobre a cultura negra da região, fomos ao remanescente de quilombo chamado Itamatatiua. Na fundação do quilombo, foi feita uma promessa à Santa Teresa D'Ávila: se os escravos não fossem recapturados pelos senhores, passariam a servir à santa espanhola. Ela os protegeu e essa é a razão de todos os habitantes terem o sobrenome "de Jesus" ou "de Teresa". "É um povo muito unido. É proibido o uso de álcool, drogas e armas, em obediência às diretrizes da nossa Senhora. Quem foge às regras é expulso da comunidade".

Nossos passos em Alcântara, posteriormente, foram acompanhados de perto e registrados pelas lentes do fotógrafo Valdemir Cunha e pelo caderno de anotações do repórter Leandro Simões, da Revista Playboy.

Não, não se trata de nenhum ensaio fotográfico com as meninas do Trilha, que sairão com seus uniformes trilheiros genuinamente sujos de barro. O Val veio buscar fotos que "contam histórias" e que passam um pouco da nossa vida, do nosso "Brasil a Bordo de um Troller", enquanto o cyber- repórter Leandro veio, como quem não quer nada, conversar conosco, usando a velha tática jornalística da mesa de bar para apimentar a matéria com alguns acontecimentos "saborosos" da viagem. O resultado vocês conferem em 5 longas páginas, na edição de outubro (ou novembro) da revista.

Deixamos São Luis depois de um longo trabalho realizado na região onde tivemos, inclusive, a oportunidade de "trabalhar" em uma mesa de edição com o amigo Aroldo Sampaio, da TV Mirante - Rede Globo, fazer um chat ao vivo na Rádio Cidade de São Luis e veicular mais uma matéria televisiva, desta vez no programa Sport Motor, da rede Record.

Após mais de 4 meses de uma longa jornada, pegamos a estrada de volta; seguimos rumo ao sul. Adeus nordeste. O Trilha Brasil já sente saudades... Sim ...voltaremos ! O nordeste é a nossa cara ! Fechamos este texto com um dos incentivos recebidos até agora. Obrigado a todos que nos acompanharam até aqui.

"Perseguir um sonho é ter a sensação de estar vivo!
Perseguir um sonho é estar sempre olhando uma meta que se quer alcançar.
Perseguir um sonho é tornar o mundo um pouco melhor.
Perseguir um sonho é VIVER! "
Maria Helena A. de Barros





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