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Recado de índio - Barra do Corda


Depois da tempestade, vem a calmaria. O calor insuportável nos fez, pela primeira vez, dirigir todo o tempo com o ar condicionado ligado no máximo numa das piores estradas de toda a viajem, marcada principalmente pelo desgaste físico de nós três.

Imagine-se agora, neste calor, trabalhar em um lugar mais quente que o próprio sol escaldante que nos castigava... Foi justamente o que encontramos nas olarias manuais presentes na beira da estrada.

Sr. Raimundo Souza Dias, o "Silveira", nos mostrou todo o processo manual na elaboração de telhas e tijolos a partir do barro, esterco e palhas de arroz. Do lado de dois quentíssimos fornos a lenha, nos explicou valores, técnicas, tudo sobre sua especialidade: "não tem vaga entre os tijolos, e depois que coloca no forno, têm que encascar tudo com barro".

Na hora de contar quantas telhas e tijolos a equipe de três pessoas produz diariamente, Sr. Silveira não hesita. Mas ao contar o número de filhos: "sete..., não....seis...., não , são sete mesmo !". Saibam que isto é uma coisa normal. Aqui, em algumas famílias, os filhos têm valores diversos dos nossos, fato que estranhamos.

Chegamos em Barra do Corda no fim do dia, e descobrimos que éramos famosos. No restaurante, no bar, no posto - todos sabiam quem éramos devido a reportagem veiculada na televisão: "Júlio César meu filho.... que que eles vão fazer agora sem gasolina !! Coitados, que Deus os protejam ..." - Esses foram alguns dos comentários que ouvimos sobre a reportagem durante a nossa estadia em Barra na aconchegante Pousada do Rio Corda (98) 643 - 2859/ 643 - 0474/ 9969 - 1619.

Mas nosso propósito de estar em Barra era o de registrar a vida indígena dos Guajajara e dos Canela, índios presentes na região desde a época da colonização, e não apenas curtir o belíssimo balneário maranhense. Acertamos assim com a FUNAI e com o administrador Claúdio nossa ida à reserva de Porquinhos, dos índios Canela, considerados os mais puros da região, e depois de uma cansativa viagem chegamos na comunidade para iniciarmos os primeiros contatos com indígenas no Maranhão.

Os textos que seguem foram extraídos dos respectivos cadernos pessoais de cada integrante da Expedição Trilha Brasil, uma vez que ao chegar na aldeia, cada um de nós foi encaminhado para uma família, fato que nos fez passar, individualmente, por experiências diversas. Vamos lá :

" ..... Foi uma sensação estranha acordar com pessoas ao redor que conversavam numa língua que não dá pra entender nem supor uma palavra. Estavam agachados ao lado de minha rede, em volta do fogo que assava o beiju. Era o meu café da manhã. Comi ainda quente, junto com um achocolatado que foi experimentado por todos (eu mesma dei só dois goles). Eles pediram que eu ensinasse como se preparava o macarrão instantâneo levado. Engraçado ver uma comida tipicamente urbana sendo preparada numa fogueira dentro de uma casa de palha indígena. O sabor foi aprovado por todos.

Logo em seguida, dois índios, quatro índias e algumas crianças me acompanharam para "banhá no rio". Todos entraram na água, alegres, e copiaram cada gesto meu. Quiseram usar sabonete, shampoo, creme rinse e até o óleo de silicone do meu cabelo. Foi divertido.

Na hora do almoço, não pude comer toda a carne, arroz empapado e feijão que me ofereceram, pois há dias estava com uma dor forte no estômago. Chamaram o pagé, que colocou seu dedo em cima do meu estômago, fechou seus olhos e se concentrou por alguns instantes. Diagnosticou minha dor como "coração virado" e me deu um chá de ervas como remédio.

À noite, lá estava eu no meio das índias, vestida como elas, participando do canto. É lindo. Finalmente me sinto no meio de uma aldeia indígena...."

- Liliana

"..... e rodearam o carro. Todos queriam "dar um aperto de mãos", cumprimentando os brancos que chegavam. É impressionante como significa muito o aperto de mãos. Eles olhavam o jipe e nós, colavam o nariz no vidro e espiavam tudo. Era uma multidão de índios correndo atrás do Troller.

Me levaram para casa, uma das maiores da aldeia. Me fizeram sentar num banco, mal dando tempo de tirar as minhas malas das costas, e me apresentaram minha mãe (intsê) Hipô e toda a minha família indígena. Ganhei 9 irmãos. Minha irmã companheira era Naía Pruncrôi. Era ela quem ficaria me acompanhando durante a minha estadia por lá. Me falaram que eu tinha que esquecer meus amigos e companheiros por que lá eu tinha uma família e eles que iriam cuidar de mim. As outras famílias cuidariam dos outros.

Depois que me banhei, sempre na companhia de Naía, voltei para casa onde um grande prato de arroz me esperava, com feijão aguado e farinha d'água (ou puba). Enquanto eu comia, meu pai Simito Kurn dizia: - Pode comer, viu? Pode comer....".

- Ana Elisa

" .... e neste exato momento me pergunto até que ponto estão preservados os índios do Brasil. Fiquei extremamente decepcionado com os Kanela no primeiro instante, mas esta impressão aos poucos vai se distanciando de minha alma. A tristeza está sendo substituída pela ansiedade de ver um povo querendo mostrar sua identidade, numa terra onde não existem ocas, mas casas de adobe, como as do sertão. Já a língua deles, o Jê, é pura, e todos sabem falá-la. A cultura em si é diferente da que conheço dos povos xinguanos. Aqui, todos os homens usam shorts. Não existe uma pessoa sequer sem roupas dentro da aldeia. As mulheres usam apenas um pano preso à cintura.

Preservados ? Tudo é uma questão de tempo. Os folhetos políticos estão em todas as casas. Esta será a primeira vez que estes índios votarão. A urna eletrônica não é um bicho de sete cabeças para quem já conhece potentes equipamentos de som da Aiwa. Mas aqui a energia elétrica ainda não chegou, apenas continua nas promessas...

As vozes aumentam lá fora. Todos cantam em sincronia no centro da aldeia, chamando as pessoas "para fazer alegria". Lá não há casa dos homens, mas três magníficas mangueiras. O som é diverso; não há flautas ou batuques. Existe somente o maraká. As decisões também são tomadas no centro da aldeia, inclusive na presença das mulheres...

Mas este sonho acabou quando não concordamos em dar um boi para a comunidade.

Preservados ? Me pergunto por quê o brasileiro destrói a sua própria história. Até quando ? "

- Luis Eduardo