Intocado deserto... chegamos ao Jalapão
S 10* 05.954'
W 47* 03.108'
Esta
é a localização geográfica de um dos locais mais fascinantes
de toda a viagem: o coração do deserto do Jalapão - TO, onde
os estados da Piauí, Bahia, Tocantins e Maranhão se encontram.
Ingressamos nessa aventura saindo de Palmas, numa quinta -feira
a noite, ainda sentindo a falta da trilheira Liliana, que infelizmente
não nos acompanhou nestes 13 dias devido à um acidente com a
mão ocorrido dias antes.
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Chegamos na pequena Novo Acordo de madrugada, e sem destino certo
de repouso, um cabo da polícia gentilmente nos conduziu até o conhecido
" Chapéu de Palha". Sem saber ao certo o que viria nos próximos dias,
e na total escuridão, tratamos de arranchar lá mesmo. Apenas no dia
seguinte conhecemos nosso mais novo anfitrião, Sr. Airton, que nos
acordou na companhia do Trilha, carinhosamente apelidado de " Pelé
".
Há 26 anos no local, Sr. Airton ainda se lembra dos momentos em que
sua família decidiu sair do Piauí numa caravana de 26 pessoas e 22
jegues em direção à Porto Franco, entrada da região do Jalapão. O
objetivo ? Tentar uma nova vida nas antigas fazendas e garimpando
diamantes. "Meu pai era garimpeiro. Já encheu 1 litro de diamantes
no Rio do Sono, e criou eu e meus irmãos com isso". Mas a história
de Airton não para por aí. Proprietário do sítio "Chapéu de Palha",
único chapéu da região - garante ele - recebe inúmeras visitas no
único, e belo, balneário da cidade.
Nas andanças pelo mato, convívio com sertanejos e índios da região,
Airton ainda aprendeu a medicar com ervas e plantas medicinais. Nas
horas vagas, gasta seu tempo em longas leituras a cerca do assunto,
e cura os já desiludidos com a medicina convencional. "Eu acredito
no que eu vejo. Mas a pessoa deve acreditar que será curada, senão
não funciona". Curandeiro dos sertões ? Trata-se de uma pessoa que
entende e respeita a natureza...
A convite do Prefeito da cidade, Sr. Lico (chará da ANA !!), seguimos
para o Assentamento Primogênito, distante 29 km. Trata-se de uma agrovila
muito bem estruturada, onde residem 64 famílias assentadas pelo INCRA.
Ao contrário da experiência semelhante por nós registrada no Estado
da Bahia, ficamos surpresos com a força que este povo está erguendo
suas terras, agora independentemente do governo. "Quando viemos pra
cá, tínhamos que dormir na cama do coelho (mato), mas foi rápido nós
mesmos construir nossa própria casa. Agora somos todos donos do próprio
terreno" - conta feliz Sr. Manoel do Bonfim Martins, relatando sobre
as experiências na agrovila. Ficamos muito felizes de ver e acompanhar
de perto mais uma "cidade" nascendo no coração do Brasil.
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Seguimos
trilha num caminho deserto e cheio de aventuras, com veados,
raposas e araras azuis sobrevoando o carro no por do sol. No
caminho, uma surpresa: a rodagem vira aeroporto de uma fazenda,
e depois volta ao normal.... Aqui é assim mesmo, as grandes
e antigas fazendas fazem parte dos caminhos e trilhas do local.
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A beleza fascinante do Jalapão nos fez mudar mais uma vez o rumo,
e decidimos dormir no meio do caminho, no local em que a família de
Sr. Airton aportou pela primeira vez: Porto Franco.
Hoje a vila continua como nos tempos em que nos fora relatado; sem
luz elétrica, sem água encanada, sem... Apenas seis casas habitam
o local, que é banhado pelas limpidas águas do Rio do Sono. Pousamos
na casa do balseiro Jânio Tavares Glória, que com a ajuda de mais
3 funcionários faz a travessia manual dos carros que seguem Jalapão
adentro. "Nos tempos de nossos pais, a travessia para Novo Acordo
era feita pelo Rio, em três dias, e no braço de Buriti" - relembra
Jânio contando sobre os momento difíceis passados pelos adoecidos.
Histórias a parte, tudo por aqui continua uma aventura: "Já teve mês
que não passou nem um carro por aqui ... mas na época do rally tudo
muda".
Da terra roxa, o chão transforma-se em areia. O Jalapão começa a mostrar
sua verdadeira identidade e o porquê do apelido de deserto. O calor
é infernal e as águas são mornas - mesmo à noite. Na companhia de
Julião, 69 anos, um antigo morador de São Félix do Tocantins, subimos
a Serra Negra, observando as pedras de formatos esculturais.
Julião nos "guiou" por São Félix, contando sobre a história e o crescimento
da região. Em sua casa, que mais parece uma creche, distribuia pedaços
de rapadura comprados na cidade para os netos enquanto almoçávamos
um saboroso tatu. Na igreja da cidade, contou-nos sobre a padroeira
do local - Nossa Sra. da Conceição, enquanto tocava o improvisado
sino feito com a pá de uma enxada. Nossas manhãs aqui foram despertadas
com um papagaio que acordava falando "Tô cum fomi, tô cum fomi....
Quero cumê, quero cumê ". Sim Sinhori - mais uma vez sentimos ao deixar
a casa do historiador Julião.
Cachoeira
da Formiga. Parada obrigatória para lavar a alma e os olhos.
Absolutamente sozinhos, distantes pelo menos 50 km2 de qualquer
ser humano, tratamos de acender um bom fogo para cozinhar algo,
no rancho "emprestado" de José Simão.
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Hoje entendemos as histórias de quem já ficou horas a fio perdidos
no deserto do Jalapão...Tempo para os irmãos Salvatore banhar pelados,
ver um céu estreladíssimo e prosear sobre a vida. A Formiga nos fez
refletir sobre tudo o que estamos vivendo. Dormimos sonhando com a
cachoeira azul e acordamos ouvindo uma araponga.
Da pequena Mateiros, seguimos para o Fervedouro, o Buraco Branco.
"O Buraco Negro nos leva a outras galáxias, certo ? Então, o "Buraco
Branco" nos leva ao centro da terra - filosofa a Lico. O certo é que
ninguém sabe explicar o que é o fervedouro, nem mesmo a proprietária
, Dona Glorinha, que contou- nos sobre as frustradas tentativas de
verificar sua profundidade. Trata-se de um monte de areia fina que
se mexe e sobe de um buraco d'água que não tem fundo. Você pula nele
e não afunda. Mistérios do Jalapão...
Atrás da Serra do Espírito Santo, encontramos as dunas gigantescas
deste deserto, margeadas por um oásis repleto de burutizais. Depois
de uma noite cheia de rajadas de areia em nossas cabeças, vimos o
forte sol raiar com ventos incessantes por detrás da Serra. Maravilhoso.
Triste mesmo foi ver uma parte de nossos sleepings voar e pegar fogo
no resto da fogueira que nos aqueceu durante a noite. Acidentes de
percurso também acontecem...
Das dunas seguimos para Ponte Alta, de volta à civilização. Fomos
recebidos pela família do Sr. Genilton Ribeiro, que nos acolheu e
nos proporcionou dias tipicamente paulistas, com almoços e jantares
em família. Ano de eleições, aproveitamos para dançar um forró no
último comício que ocorreria na região, regado a muita cerveja e comida
a vontade para a população do campo.
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Pensam
que deixamos o Jalapão ? Nos dias seguintes, voltamos dezenas
de kilômetros para o deserto para conhecer a Cachoeira da Velha,
numa antiga fazenda local. Na companhia de Ariston e Stanley
nos maravilhamos posteriormente na lagoa "sem nome" e na fenda
da Suçuapara. |
Intocado Jalapão, que Deus o
proteja do progresso.
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