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Ilha do Bananal - Uma selva no coração do Brasil


Ilha do Bananal...velha conhecida por suas histórias; importante alimento nos pré roteiros da expedição. Desconhecida pela maioria dos brasileiros, é considerada a maior ilha fluvial do mundo, gigante por natureza, cercada pelos rios Javaé e Araguaia. É a fronteira entre os estados do Tocantins e Mato Grosso.

Ao norte, preservada pelo IBAMA, tem como portão de entrada Lagoa da Confusão - pequena cidade tocantinense famosa por suas lagoas e principalmente pela Pedra da Confusão, estranha forma rochosa presente na lagoa que dizem se locomover e mudar de lugar durante a noite. Há quem diz que a pedra anda mesmo. Lenda ou não, a estória está presente na cabeça dos antigos moradores como seu Antônio, barqueiro que nos conduziu até a famosa formação e nos contou um pouquinho sobre a sua história. Além da pedra, uma gruta (Gruta Igreja de Pedra). Inundada nas épocas de cheia, deixa vestígios de peixes decompostos e pequenos sinais dos visitantes temporários, como os jacarés, na época da seca. As ossadas presentes sobre a nossa cabeça, no teto de um dos salões, ninguém sabe ao certo de onde vieram, ou de que época são.

A parte sul da ilha está nas mãos da FUNAI, e a entrada se dá pelo Porto Piauí, a alguns quilômetros da cidade de Formoso do Araguaia, onde brancos e índios Carajá se misturam ora falando português ora falando na língua indígena. Assim como o inglês está para nós, o idioma indígena está para os Toris de lá.

Deserta, virgem, selvagem... essa é a sensação de quem atravessa os 105 km de extensão leste-oeste, de Porto Piauí, no Tocantins, à São Félix do Araguaia, no Mato Grosso, e presencia o espetáculo e os perigos que a natureza da illha tem a oferecer à quem se aventura a percorrê-la.

O pedágio de R$ 30,00 pago aos índios da aldeia Txuirí logo na entrada, dá o direito de ir e vir dentro da ilha, e tem até recibo. A estrada de chão, é praticamente intransitável na época das chuvas mas tivemos a sorte de pegar o último mês de tempo estável, mesmo correndo o risco de alguns atoleiros devido as primeiras chuvas de dias anteriores.

Logo de início, preás, emas e siriemas foram uma constante em nosso caminho. Com as dicas do Chico, nosso companheiro e guia, chegamos ao ninhal mais bonito que já tínhamos visto: Uma lagoa recheada de Tuiuiús (ou Jaburus). Eram centenas deles. Grandes, pequenos, voando ou não, enfeitando e colorindo a natureza. Junto com eles, debaixo e em cima da água, os jacarés mostravam seu domínio.

O calor infernal nos pedia para parar um pouco, mas o banho nos vários rios existentes são perigosos em sua maioria. As piranhas são ferozes e selvagens. Fomos então ao riozinho. Lá, segundo o Chico, poderíamos nos banhar sem erro. O Luis e o Trilha foram os primeiros rabudos a colocar os pés na água.

Brincando com a sorte, não imaginavam que minutos mais tarde, a Lico quase ficaria sem a tampa no dedinho do pé. Exagero? Não, verdade. Foi mordida por uma piranha veroz e faminta logo no momento que entrava para se refrescar.

O resto do banho se deu com a ajuda da tigela do Trilha, que serviu de caneco....A marca de seus dentes ainda permanece...

Depois desta experiência desastrosa com as águas da região do Araguaia, quilos de mangas chupadas no pé da aldeia Imutxi, e muitos quilômetros rodados, era hora de parar para comer e dormir sob a luz do luar. Arranchamos junto com um grupo de atravessadores que tínhamos conhecido na hora do almoço. Depois de armadas as redes, a surpresa: Piraca, Caranha, Cachorra, Tucunaré e Piranha no trisco. A melhor peixada de nossas vidas, regada a arroz , farinha de puba e cebola. Nem precisaria destes complementos. O peixe fresco assado na brasa e comido na mão mesmo, tem um sabor único e especial.

Cruzamos as fronteiras com o Mato Grosso a pé mesmo. Deixamos o Troller na Ilha e seguimos de balsa para São Félix do Araguaia, onde um banho de chuveiro e um bom almoço nos esperava.

Final de tarde, por do sol estonteante, hora de voltar. Cruzar a ilha a noite e sozinhos era para nós um desafio. Hora dos bichos. Raposas, jacarés, capivaras.....e por que não lobos-guarás?

E foi assim que fomos premiados em nossa volta a Porto Piauí: um casal de raposas, dezenas de jacarés nas poças a beira da estrada e dois lindos lobos-guarás, gigantes e dourados, que passeavam pela beira do caminho. Pausa para fotos e admiração da natureza selvagem a poucos metros de nossos olhos.

Mais uma noite a beira do rio, desta vez o Javaé e novamente na companhia de Seu Emiliano e filho, seu Adão e suas histórias do garimpo, outros atravessadores e mais peixe no trisco.

Assim como crianças querendo mais, deixamos a ilha mas nos presenteamos no dia 12 de outubro com um sobrevôo de 2 horas sobre a ilha e região Araguaia. Decolamos de Gurupi nas mãos do piloto Cláudio e lavamos nossos olhos a bordo do monomotor Cesna.

Gurupi nos rendeu também uma boa noite cultural e amigos de verdade. Conhecemos Leonardo, Ricardo, César Henrique e Joyce nas apresentações de poesia e arte que movimentaram a cidade incentivando a cultura e os artistas do nosso país.

Mais uma vez partimos na saudade. Se cuidem meus amigos. Um dia nossos destinos se cruzarão novamente.