De volta à Chapada...
| Poucos
sabem a importância que a Chapada dos Veadeiros - GO teve em
toda a realização do Projeto Trilha Brasil. A verdade é que
a Chapada já era uma grande conhecida sem ao menos termos pisado
nela. |
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Em 1999 estivemos na região, "de mochilão", conciliando a volta da
Aldeia Mehynaku, no norte do Estado do Mato Grosso. Rever tudo isto
com a estrutura e preparo que temos hoje foi fantástico. Diríamos
até mais...
Cruzamos o sul do estado do Tocantins e o norte do estado de Goiás
numa fantástica viagem no fim de tarde, com o sol descendo estrada
adentro. Presente para quem já está na estrada há tempos em busca
do desconhecido...
Chegamos à pequena vila de São Jorge através de Cavalcante, cidade
conhecida por ser a principal via de acesso aos remanescentes "Kalungas",
que por sinal nos presentearam com um CD inédito, de Boto e Jorge.
Todos os caminhos ao redor da Chapada continuam sendo por estradas
de terra, fato que proporciona um charme especial aos visitantes da
região. O visual de quem chega por estas bandas é indescritível.
Passado cerca de um ano, São Jorge continua a mesma: linda e charmosa.
Atraídos pelas magnificas cachoeiras, fomos aproveitar o fim de tarde
no místico Vale da Lua. Tempo para refrescar o corpo, a alma e é claro,
lavar as roupas imundas da viagem. As exóticas pedras de formas misteriosas
do Vale serviram pela primeira vez de tanque para os viajantes da
Trilha, que tanto viram e fizeram isto nos usos e costumes deste Brasil
afora...
Aos poucos começamos a sentir o choque das "grandes civilizações".
Uma parte da população local já não é mais formada pelos antigos caboclos
de fazendas e descendentes de garimpeiros das minas de cristais. A
conversa mudou, as atitudes mudaram. Sim, estamos próximos da Capital
Federal e isto faz muita diferença para quem está na estrada há mais
de 6 meses tendo contato com uma população completamente desconhecida
por nós, paulistanos do sudeste. Mas nossos personagens ainda estão
lá para contar parte da história e dos costumes locais.
Foi assim que chegamos, depois de uma série de noites incríveis na
"estrela de pedra" do alto da antena de São Jorge, na casa da velha
e conhecida Dna. Chiquinha. Seu marido, o ex-garimpeiro Cecílio, nos
contou com orgulho como era a São Jorge de antigamente, onde aviões
decolavam e pousavam repletos de cristais bem em frente a sua casa,
hoje uma das principais ruas da Vila: "Já vi avião cair de tão pesados
de cristais. Era tanta pedra que podia deitar em riba. Eu mesmo já
tirei pedra de 700 Kg, mas bonito mesmo é o cristal limpo, que por
dentro mais parece um poço d' água".
Ainda na busca dos antigos descendentes locais, chegamos no rancho
do Waldomiro, no Morro da Baleia. Se fossemos contar tudo o que este
homem- personagem nos passou, teríamos que dedicar um diário somente
à ele. Waldomiro é na verdade um artista de primeira: cozinha, cria
animais, planta frutas, faz bebidas... Isto sem contar o número infinito
de expressões que nos falou. Pensamos até no dicionário do Waldomiro
!
Para este Lorde do Sertão, "o segredo é trabalhar com amor à profissão".
E que amor ! Almoçamos (e jantamos ), depois de longas conversas e
causos, uma deliciosa matula, prato típico e antigo da Chapada, servido
na folha da bananeira - e que só ele sabe fazer.
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Em
suas palavras: "não é uma comida melhor do que a de ninguém,
ela só é diferente". Para sobremesa, muitos doces e licores
tipicamente brasileiros - e únicos ! Vale a pena conferir diretamente
com o Rei dos Licores
(61) 646 - 1709. |
Finalmente
chegamos em Seu Zé Raimundo, ermitão de 87 anos e também antigo
conhecido das histórias do garimpo. Ex - proprietário do Sítio
Raizama, há 10 anos extrai cristal de rocha do mesmo buraco,
isolado nas entranhas da Chapada.
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Mas o mais impressionante em Seu Zé Raimundo não foram as peripécias
vivenciadas na vida do garimpo, mas sim na capacidade e inteligência
deste homem que cursou apenas a segunda série do primário.
Em nossa conversa, comentou algo sobre estar escrevendo um livro desde
1994; pegou de dentro de uma lata velha que usa de armário um caderno
e trouxe para nós. Tratam-se de cerca de 50 páginas manuscritas que
reúnem textos de sua autoria, com histórias diversas sobre a dura
vida no garimpo. Ficamos impressionados. Vale a pena transcrever um
pequeno trecho de seus relatos, que certamente estarão um dia nas
prateleiras de uma livraria, grande sonho de Zé Raimundo:
" O garimpo é uma cachaça desgraçada, mas o minério é riqueza. Se
você acertar, tá rico. Eu tenho essa ilusão com o garimpo e por isso
eu não paro. Não lamburrei, gastei com minha saúde. Mas ainda tenho
esperança de ter uma casinha. Mas ser rico não é muito bom não senhor.
O bom é ter saúde. O rico vive assombrado, tem que andar escondido."
Mas nem só de garimpo , turismo e comunidades alternativas vive a
Chapada de hoje. Chegamos novamente a era dos artesãos, acreditem.
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Ivan
Freitas, o Van-van, é o mestre dos móveis e dos calçados. Utilizando
restos de pneus de carros, jipes e caminhões, Van produz uma
sandália de dedos tipicamente ecológica: a Havavan ou, simplesmente,
Havan. |
Com a ajuda de seus discípulos
- 4 aprendizes que desistiram da vida da cidade grande em busca de
uma qualidade de vida melhor, a oficina do Recanto do Sol produz cerca
de 10 sandálias por dia, cuidadosamente manufaturadas sob seu olhar
e mãos. A lógica ? Muito simples: a matéria prima que utiliza não
foi feita para seres humanos, mas sim para veículos pesados viajando
há vários Km por hora. Portanto, o andar do ser humano não pode gastar
esse solado, que tem durabilidade e resistência infinita quando utilizada
pelo homem. O certo é que adotamos a Havavan como a sandália oficial
do Trilha Brasil.
"O objetivo é ficar ao máximo, produzir, evoluir, se sustentar. Estamos
procurando mesmo paz ". A frase do amigo Fábio Alves, um dos companheiros
de Van, representa o sentimento de todas as pessoas que, há anos,
migraram para a região. Na Chapada dos Veadeiros, ainda encontramos
tudo isso. Fugitivos de uma realidade ou não, todos querem paz, e
assim como nós, aqui a encontraram.
Neste fim de viagem, sob as luzes de velas, na exótica e magnífica
Pousada Casa das Flores (61) 234 - 7493, pudemos em alguns dias refletir
sobre tudo o que nos aconteceu nestes últimos meses e agradecer a
Deus sobre as oportunidades que a vida nos pôde oferecer. Levamos
a mensagem dentro de nossos corações. Obrigado amigos; obrigado por
nos ensinarem mais... A jornada chega ao fim. Levantamos agora a bandeira
de missão cumprida em Brasília - DF.
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