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O Barraco de Arranchada


Moro na Ilha do Passeio há quatro anos, eu e mais 10, tudo parecido comigo. Minha vida é ficar olhando a maré sumir, até acolá na Ilha do Caju, e encher, quase chegando em mim. É sentir o vento balançado a minha palha, brincando com a areia e me refrescando do sol forte. Passo dias ouvindo só o piar dos pássaros, o balançar das folhas de melancia e as ondas quebrando atrás de mim, no mar aberto. Até o dia que eles chegam e quebram esse quase silêncio.

Vêm do lugar deles, Tutóia, Carnaubeiras, Parnaíba... trazidos pela vela. Cansados da viagem, amarram suas redes e recarregam as energias para os dias de trabalho que têm pela frente. Pesam nas madeiras do teto, mas fico feliz por abrigar esses rapazes que alegram meus dias. Sei que se não fosse por mim não passariam tanto tempo por aqui.

Logo levantam, se dividem em dois grupos e um deles sai em busca do peixe e do camarão. Os outros me fazem companhia, costurando os buracos nas tramas da caçoeira, quase sempre feitos pelos siris, e atiçando o fogo para torrar o camarão que vai chegar.

Quem manda nos horários é a maré. Ela deve estar quase seca, de forma que a rede, muito curta, alcance o camarão no fundo das águas. À noite é um pouco mais fácil porque o bicho fica perto da ilha.

Gosto de ver a expressão dos meus amigos na volta de uma boa pescaria. Carregam o cesto em dois, com o corpo arqueado. Devem sentir-se como eu, fazendo esforço pelo peso, mas muito felizes com o motivo.

Todos se concentram na lavagem do camarão, um por um, e vão colocando num caldeirão velho, já cheio de água com sal dissolvido. O caldeirão vai para o fogo até que todos fiquem bem rosados, já prontos para a venda e para servirem de aperitivo lá mesmo. Depois de lotarem a geladeira de isopor, hora do descanso.

O escolhido do dia prepara a refeição, sem muita criatividade: peixe cozido no sal com pirão de farinha de puba. Para beber, suco de saquinho. Sentam nos banquinhos de madeira e comem olhando o sol se pôr. Ouço suspiros entre uma garfada e outra, imagino que fiquem pensando na sua gente, no sorriso cansado da mulher, nas risadas dos filhos, no cachorro sentado nos pés. Sei disso porque já ouvi alguns cochichos de saudade confidenciados às minhas palhas, que não devem ser tão aconchegantes como um lar...

Logo essa melancolia passa, as piracas são acesas e a noite fica animada, quase sempre com um jogo de baralho na mesa de canto. Contam histórias que às vezes acredito, outras são tão exageradas que fica difícil engolir. Só me intriga a conversa dessa tal sereia...Alguns sentem tanto medo dela que me pego rezando para que nunca a encontrem. Ficam palestrando até umas horas, aos poucos uma voz se cala, depois outra, até ficar só o barulho do mar.

Os dias são parecidos, por uma ou duas semanas. Depois me deixam só de novo, até o próximo mês. E eu fico aqui, no conjunto da natureza, torcendo para que eles não falhem.

Ouvi dizer que essa ilha não existia, a maré foi revelando aos poucos, deixando a areia enxuta. Hoje ela chega cada vez mais perto de mim, comendo tudo ao redor. Será que ela gosta de palha de carnaúba e pau de mangue? Espero que não...

Assim como o "barraco", compartilhamos alguns dias da vida dos pescadores de arranchada. Uma vida sofrida mas cheia e esperança. Uma eterna luta contra o inimigo mais forte: a pesca de arrastão em alto mar. Esse é o dia-dia dos amigos pescadores do Delta do Parnaíba.