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Cururupu - O ponto extremo da Expedição Trilha Brasil


Na busca de remanescentes de escravos presentes na região noroeste do Estado do Maranhão, seguimos juntos com uma equipe da TV Mirante - Rede Globo de Comunicações para Cururupu. Nosso objetivo foi o de documentar estas comunidades na companhia da equipe para um especial na TV sobre o Projeto Trilha Brasil.

Assim, dirigimos estrada afora com nossa proposta. O repórter Élbio Carvalho, o camera men Zé Raimundo e o auxiliar de câmera, motorista e chará - Zé Raimundo - nos acompanharam nesta viagem com a proposta de registrar toda a forma de trabalho por nós utilizada.

Logo na rodovia transmaranhão, cruzamos com uma curiosa senhora que fazia ginástica no meio da estrada: "pára, pára... olha aquela mulher no meio da rua fazendo abdominal ". Tratava-se de Dona Edviges, 55 anos, nossa primeira entrevistada. Edviges faz ginástica porque viu pela televisão que é saudável, e não tem medo de ser atropelada porque "Jesus a protege" dos milhares de carros que cruzam a estrada. A malhação na transmaranhão é algo normal para ela, que faz isso há 5 anos, todos os dias, na companhia de algumas amigas. Depois ainda nos indagam o que é mais curioso em nossas andanças...

Como nossos amigos não estavam em um Troller, é claro que houve um problema mecânico no veículo de apoio, uma vez que as condições das estradas são péssimas. Acabamos por não conseguir chegar em Cururupu no dia certo e tivemos que dormir em Mirinzal, uma cidadezinha localizada alguns quilômetros antes.

No processo de colonização do Maranhão, Cururupu fora local de fazendas para cultivo de arroz, mandioca e cana. Assim, inúmeros engenhos foram instalados, utilizando-se para tal a mão de obra escrava proveniente da costa do Douro e Daomé (Guiné). Este fato é que justifica a grande presença de pessoas de pele negra nas comunidades vizinhas que estivemos.

Na verdade, Cururupu não é mais uma vila, como havíamos pensado, e sim uma cidade de médio porte, onde o mini-disk é encontrado em qualquer esquina, consolidando a febre instituída pelas radiolas em utilizar tal sistema acústico. Outra curiosidade: a origem do nome Cururupu. Diz-se que na lingua indígena Tupinambá cururu significa "sapo grande". Logo, Cururu-pu significaria "sapo grande cantando" ou "cantiga de sapo grande".

Seguimos Maranhão adentro por trilhas, lamaçais e entrevistas até o povoado de Inteno (aqui se faz, aqui se paga - também tivemos problemas no carro!). Lá pudemos apreciar uma autêntica aula de interior. A palavra democracia foi o tema da aula que precenciamos. Nesse momento, nossas almas foram tomadas por um sentimento de angústia, quando ouvimos a seguinte frase: "quando nossos avós eram escravos...". Percebemos assim que a herança da escravidão está presente no dia-dia dessas pessoas. Éramos os únicos brancos presentes no local e cofessamos que esta frase soou como um tiro no coração.

Temos que admitir aqui que nosso passado é sujo e triste, mas brasileiros como a prof. Helena, que levam sua mensagem para crianças pobres de uma escola sem energia elétrica e recursos, são fatos que nos motivam. Ela é como nós. Tem garra e força. Luta por um país melhor. Mas o mais gostoso foi, sem dúvida, ver o sorriso nos rostos das milhares de crianças ao darem uma "voltinha" de carona no Troller durante o recreio. Acabamos por ganhar dois pequenos "bois" de recordação.

Mal tínhamos esquecido da história da professora quando ouvimos outra bomba, logo ao entrar em uma casa de adobe que almoçamos: "prazer Florentina Ferreira de Souza, sua criada". Se ouvir uma pessoa falando da escravidão dos antepassados foi difícil, imagine-se esta. Ficamos perplexos. "Mas aqui é assim mesmo" - dizem os locais. Mais uma vez, triste herança.

Seguindo viagem com nossos amigos, descobrimos um pouco do dia-dia dos repórteres globais em ação. Sua principal distração é a brincadeira do jegue, nas palavras de Élbio: "cada jegue que passa pelo lado de um dos competidores conta 1 ponto para ele. Se estiver preparado para a guerra, conta 2. Se estiver na batalha, 5". E foi nesse clima que chegamos numa autêntica casa de forno (em funcionamento) do sertão.

Sr. Estevão Reis Pinto é quem comanda o feitio da farinha. Ele nos explicou e mostrou todo o processo, desde o amolecimento da mandioca no rio até o torramento da massa. Mas o que nos intrigou mesmo foi o transporte desse material: carro de boi. Desde pequenos sempre soubemos o que é um carro de boi.

Mas encontrar um e ver de perto todo o funcionamento foi bem diferente. Em primeiro lugar, o carro "canta" com o dono. Um barulho para nós no limite do insuportável, mas para o dono uma simples e gostosa conversa. Em segundo, a técnica: sebo de boi.

"O sebo serve para não pegar fogo nas engrenagens. Temos que passar sempre" - explicou Sr. Estevão. De fato gostamos tanto do carro de boi que substituímos por alguns instantes nosso Troller por um.

Viajar com uma equipe nos acompanhando foi uma experiência nova e agradável. Pela primeira vez, tivemos que trabalhar sob a mira de uma câmera beta e um microfone. Agora aguardamos ansiosos os resultados desse trabalho na televisão. Com muito profissionalismo e muita dedicação, aos poucos chegamos lá, mostrando nosso Brasil para todos nós !! Obrigado amigos da TV Mirante !