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Radiola Trilha. Uma noite de reggae na estrada Brasil ...


O carro não chega até lá. As ruas de pedra estreitas, margeadas por botecos, ditam o caminho dos "filhos de Jah à Babilônia e à cultura Rastafari". Só pelo número de pessoas que seguem na mesma direção, já é de se esperar que o Espaço Aberto, nome do lugar que recebe a radiola, seja como um coração de mãe.

Os ingressos são vendidos a 3 reais para mulheres e 5 para os homens, através de um minúsculo furo na parede feito a uma altura que obriga os "reggaeiros" a quase agacharem no chão. O bilheteiro só enxerga bocas que solicitam números de entradas. Por pouco as notas não tem de ser dobradas ao meio para passarem pelo orifício.

O som (só reggae internacional pesado !) dá boas vindas, aumentando a ansiedade das filas, divididas em masculina, à direita, e feminina, à esquerda. Isso para facilitar a revista detalhada (até demais), garantindo a segurança. Na companhia de Vanessa e Alessandro "sapão", nossos anfitriões nessas entranhas do nordeste, cruzamos o portal para o mundo das radiolas. O impacto é forte! A expectativa do "coração de mãe" se confirma: espaço lotado.

É difícil acreditar que ainda tem muita gente para entrar; uma infinidade de pessoas que prestigiam uma das mais conceituadas radiolas de São Luis: Estrela do Som. Ela faz parte de uma série de radiolas de São Luis que competem entre si tanto pela qualidade, seqüência e potência do som. Nestes casos, os reggeiros são verdadeiros fanáticos, lembrando uma torcida de futebol em estádio. É ver para crer ! Nossas palavras são incapazes de descrever fielmente o que é a radiola cheia.

Penetrar nesta mega festa exige jogo de cintura. A melhor opção é deixar-se levar pelo ritmo contagiante... As paredes laterais são forradas por gigantescas caixas de som, pintadas de vermelho e de uma potência ensurdecedora, característica das radiolas.

O som é denso, quase concreto; as batidas são sentidas dentro do corpo. A luz negra destaca as roupas claras e ilumina os sorrisos brancos. No ar, o suor produzido pela dança agarradinha...

Dançar o reggae no Maranhão style, ou "quebrar", pode ser sozinho, numa roda, ou em pares, num balanço sensual e gostoso. Esse swing único só é interrompido pelo locutor da radiola.

É ele quem comanda o som, seleciona as pedras de responsa, interrompe músicas no meio e não pára nem por um segundo de falar o que lhe vem na mente, chegando a atordoar. Um DJ exótico. Para se ter uma idéia, cada música chega a recomeçar cerca de três vezes, sempre.

Nos fundos do espaço, debaixo de um pé de amêndoa, é que se descansa um pouco e dá para perceber personagens locais que circulam pela noite, como o vendedor rebolando no movimento com sua mesa ambulante de chocolates e balas e o rapaz com o engradado no ombro recolhendo as garrafas pelo chão. Na radiola não se vende água, só cerveja.

Erra quem vincula o reggae a chinelo, bermuda e canabis aqui. Diferente de algumas praias brasileiras, é um evento com direito a perfume e salto alto! E quem se livra da camisa para amenizar o calor (né, Luis?), está arriscado a tomar uma advertência do segurança, que vem vestido numa jardineira jeans mais parecendo um orfão de Bob Marley curtindo a Ilha do amor.

Privilégio e felicidade. Essa é a impressão quando se sente o embalo do reggae por toda a cidade, "subindo ao céu rolando no chão" num lugar que não existe outro no mundo. Exclusividade da Jamaica Brasileira!

Aprendemos aqui que não basta ser rasta, é preciso estar certo de sua convicção; é preciso justo em sua razão; é preciso ser puro no seu coração. O reggae agarradinho foi uma experiência única. Este é o calor do Maranhão ! Este é o calor do Brasil !