Caruaru, o Arraial do Brasil !
Caruaru
é uma das maiores cidades de Pernambuco, perdendo por pouco
só para Recife. Grandes indústrias, lojas, shoppings e até trânsito
foram contrastantes com as pacatas paisagens do sertão a que
estávamos acostumados. Apesar
de sermos três paulistanos, demoramos um pouco para voltar ao
ritmo de uma cidade grande.
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Depois de ter provado a hospitalidade e a simplicidade das pequenas
cidades do interior nordestino, estranhamos a dificuldade em encontrar
um hotel pra ficar, todos lotados em razão do início das festas juninas.
Finalmente estabelecidos num aconchegante bar-dormitório ao lado da
rodoviária, fomos para o Arraial Vitalino, conhecido por ser o maior
São João do Brasil.
Chegamos justamente no primeiro dia da festa, que se estende até o
fim do mês e se apresenta conforme a definição de seu ritmo oficial,
o forró: derivado da palavra forrobodó, "festança ou baile popular
onde há grande animação, fartura de comes e bebes e muita descontração".
As comidas típicas, vendidas e preparadas para uma multidão, em centenas
de barraquinhas, variavam entre carnes de bode, bolos de milho e mandioca,
curau e um delicioso queijo de coalho assado em eficientes "calotas
de fusca". A bebida fica por conta da pinga com caldo de feijão e
o famoso Ron Montilla, patrocinador da festa. A população local é
quem garante e sustenta toda esta estrutura.
No Arraial do povo, um palco enorme sedia um show ao vivo todas as
noites, um som que se mistura aos mais de cinco ou seis arrasta-pés
"pé-de serra" que garantem a animação de cerca de 80 mil forrozeiros.
A única decepção foi o trem do forró, que sai de Recife e deveria
chegar em Caruaru naquela noite, mas descarrilhou no meio do caminho.
No fim da noite, carriolas de madeira carregam os foliões cansados.
São puxadas por homens como Davi, condutor da carriola que andamos
até uma parte do percurso, pois ficamos constrangidos ao ouvir as
pessoas o chamarem de cavalo. Descemos e fomos conversando ao seu
lado, descobrindo um pouco da sua vida.
Assim como os outros, Davi recebe 51 reais mais as gorjetas, totalizando
mais de R$ 400,00 no fim do mês. Trabalhava antes vendendo picolé,
mas não dava mais para sustentar a mulher e o filho que chega no mês
que vem.
Assim como outros que já cruzamos nessa Trilha, Davi foi um exemplo
de força e luta pela sobrevivência em um país que o desemprego parece
não ter limites, onde as pessoas são capazes de tudo por alguns trocados...
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Conhecemos
também um pouco da história do artista que empresta seu nome
ao Arraial: Mestre Vitalino. Ficou conhecido internacionalmente
na década de 70 por suas originais esculturas de barro, que
retrataram o cotidiano do nordestino, hoje expostas em 118 peças.
Subimos o Alto do Moura, local de seu nascimento e que hoje
reúne artesãos que se inspiraram em sua obra. |
Entre
eles está seu filho Severino, quem nos mostrou a casa onde viveu
o pai, tombada como patrimônio histórico. Na ocasião, pudemos
acompanhar todos os passos da criação de uma escultura de barro
típica, que representa a primeira obra de Vitalino, "O caçador
de gatos", criada quando ele tinha apenas seis anos. Severino
nos contou que o original foi vendido na feira por seu irmão
a dois tostões, o que na época dava para comprar dois pães doces.
Hoje, um original de Mestre Vitalino não tem preço.
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Criticado pela família, que não via futuro em sua brincadeira e insistia
para que ele ajudasse no trabalho da roça, Mestre Vitalino dizia:
"Era mais importante que eu aprendesse a usar as minhas mãos do que
a minha cabeça. Na minha terra, as mãos produzem comida, a cabeça
só produz confusão" - frase do Mestre eternizada no Museu do Barro,
localizado na cidade.
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Outro
Museu que conhecemos foi o do Forró, com histórias sobre o rei
do Baião Luis Gonzaga, a origem da festa junina, do grupo de
bacamarteiros e das bandas de pífanos. |
Deixamos a Capital do Forró para
seguir à Capital da Poesia, a cidade de São José do Egito. No meio
do caminho, paramos para conhecer o ponto mais alto do nordeste, o
Pico do Jabre, com 1.187m de altura. A vista? As fotos falarão melhor
que as palavras...
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