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"Rélaxe, você está em Nórônha..."


Mais uma vez conhecemos pessoas que se envolveram com o ideal do Trilha Brasil e permitiram a realização de um grande sonho: conhecer o Arquipélago de Fernando de Noronha.

Devemos essa concretização ao César, da agência Ponta Negra Turismo - (84) 219-5121 - e ao agora amigo Solon, proprietário da Pousada do Vale - (81) 3619-1293 - nossa casa durante a estada, situada aos pés de uma enorme gameleira e ao lado das melhores praias da ilha.

Pegamos o vôo em Natal debaixo de uma chuva torrencial, apreensivos, mas a informação do comandante de que o tempo de nosso destino estava ensolarado carimbou um sorriso nos 40 passageiros.

Depois de uma hora no ar, avistamos da cabine do piloto o primeiro sinal de terra noronhense: o Morro do Pico, o ponto mais alto da ilha, com 323 metros. O avião dá uma volta completa antes de pousar, enchendo nossos olhos com a vista do mar de todas as tonalidades de azul e verde, morros forrados com a densa mata atlântica (nessa época de inverno) e praias com areias brancas.

Nessa hora, tem-se a sensação de ter em mãos o passaporte do paraíso... Mas se Adão e Eva viviam felizes e sem dever nada a ninguém, aqui "Deus" cobra aluguel por dia. Basta pisar em solo noronhense para começar a pagar a Taxa de Preservação Ambiental.

Esse é o primeiro ponto da ilha das contradições. Se hoje é o céu e fonte de lazer para os privilegiados turistas que desfrutam as belezas da ilha, já foi o inferno de muitos presidiários e tédio para atuais moradores.

Um resumo de sua história? Foi descoberta em 1503 pelo navegador espanhol Américo Vespúcio, numa expedição financiada por Fernão de Loronha, fidalgo português que recebeu a ilha como uma Capitania Hereditária. Não chegou a conhecê-la, sendo posteriormente ocupada por franceses e holandeses.

As construções foram iniciadas apenas em 1737, quando começou a funcionar como colônia correcional, função que se estendeu até 1938. A mão de obra para os 10 fortes de pedra erguidos visando o sistema defensivo do território consistia em presidiários, cuja desobediência era paga com terríveis torturas. O Forte da Vila dos Remédios guarda ainda em suas ruínas as paredes dos cubículos de 1,5m x 0,70m onde eram amontoados 10 presos, apenas a base de água. Assim que morriam, seus corpos eram jogados nos calabouços e engolidos pelo mar.

O isolamento mexia com o imaginário dessas pessoas, que acabavam por criar lendas que perduram até hoje, como a da Alamoa, uma belíssima mulher de longos cabelos louros que saía de uma fenda do Morro do Pico e atraía os homens para o fundo do oceano.

De 1938 a 1942 foi requisitada como presídio político, sendo ocupada por personalidades como Miguel Arraes, que anos depois, durante seu governo em Pernambuco, assinou a transferência da ilha de volta ao estado. Durante a II Guerra Mundial, serviu como base do exército americano e foi Território Federal, ocupada pelo exército brasileiro, de 1942 a 1988.

Através de uma Disposição Transitória da Constituição Federal de 88, passou a ser um Distrito Estadual de Pernambuco, conduzida por um Administrador Geral, hoje Sr. Sérgio Salles, nomeado pelo Governador do Estado.

Em decorrência de nosso trabalho, buscamos uma visão ignorada por quem passa por aqui apenas em busca de sombra e água fresca: a vida dos ilhéus. Como diversão, o forró se estende noite adentro no bar do Cachorro, e nas palavras de dona Pituca, "late forte toda noite". Antiga moradora da ilha, também é uma contradição. Vive numa ilha e tem pânico de mar!!! Para ela, é suficiente olhar o infinito azul de cima de sua varanda e ouvir o som das ondas estourando longe de seus pés. Por diversas vezes recusou o convite de seus amigos para conhecer o fundo do mar, nem que fosse apenas para observá-lo pelo chão de acrílico do catamarã da operadora Atlantis.

Mergulhos com cilindro ou mesmo mergulhos livres são passagens para um mundo submarino único na Terra. Nossos amigos noronhenses Irã, Maneco, Paulinho e Clésio nos levaram para nadar entre peixes de várias combinações de cores e tamanhos, arraias, moréias mal encaradas, polvos e tubarões, que flutuam na nossa frente sem se preocupar com a nossa presença.

Também saímos de barco com o biólogo Ricardo "Onça", do Projeto Tubarões, com o objetivo inicial de pescar nosso jantar. Derrubando a velha crença de que mulher no barco não dá sorte, a Lico fisgou um tubarão, e pudemos assistir a coleta de DNA para pesquisas e como o bicho é identificado. O jantar foi garantido por duas barracudas e seis piraúnas.

Não fomos nós que passamos pela ilha, ela penetrou por nossos poros, deixando marcas inesquecíveis e a vontade de voltar um dia, para novamente se deixar levar por seus encantos e mistérios...