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São José do Egito - A capital da poesia


Aqui no nordeste, quando se fala em poesia logo se pensa em São José do Egito, uma cidade pernambucana, pequena e aconchegante, onde a fama e a arte não chegam aos pobres mortais do sudeste. Uma pena.

É lá, nesta pequena cidade, no coração de Pernambuco, que nasceram os grandes poetas e repentistas brasileiros.

Seria errado dizer que a "cidade" faz jus ao título de Capital da Poesia. A poesia está nas pessoas, mas não na cidade. Nem uma rima sequer enfeita a praça central ou qualquer outro ponto público. Mais uma vez, uma pena. Mesmo assim, achamos as estrofes, os versos e os repentes. Lá estavam eles, na boca das pessoas, no coração das crianças.



Foi na escola, assistindo a uma aula da 7ª série, com o professor Nenê Patriota, que sentimos a poesia, que vimos a arte e aprendemos sobre seus criadores. Famosos poetas, reconhecidos repentistas. Lá é assim. O professor cria, um aluno recita, um colega é poeta.

Antônio Marinho tem 12 anos. Desde os 6 escreve e recita poesias com louvor. Seguiu os passos do avô, poeta famoso e bem visto pelo mundo afora.

Seu Zé Catota é repentista. 82 anos, aposentado da profissão de cantador, ainda faz versos de improviso. Teve parceiros no passado e viajou cantando a sua arte. Depois de pouca conversa e muitos repentes, ele nos "disse" o seguinte:

"Eu agradeço o trabalho dos amigos do Trilha Brasil
Foi mesmo de eu ter achado de virtudes mais de mil
Um povo tão educado, tão puro, santo e gentil

De fato o Trilha Brasil anda por aí afora
Descobrindo certas coisas, aonde o cantador mora
Onde se reina alegria, onde se geme e se chora


Andam por aí, fazendo uma certa pesquisa
Vendo o canário onde canta, sentindo o gato onde pisa
E recebendo dos versos, tudo que a gente improvisa"

Mas não é só de versos bonitos que o povo Egipciense vive. A cidade dos poetas também tem seus problemas. A pobreza e a miséria reinam nos becos da cidade. São crianças pisando no esgoto, lixo e sujeira. Encontramos por lá, moradores abandonados, às moscas, completamente esquecidos pelas autoridades locais. E para dizer a verdade, que autoridades ????

Só pra começar, o prefeito de São José do Egito mora na Paraíba. É carinhosamente apelidado pelo locutor da Rádio Liberdade Comunitária - Cláudio Soares - como o "prefeito Copa do Mundo - aquele que só aparece de 4 em 4 anos". É a rádio, a única que faz alguma coisa por estes pobres moradores esquecidos e ignorados. Contando com a ajuda e doações da população local, desenvolvem um projeto de assistência social, distribuindo cadeiras de rodas, alimentos, remédios... a lista não pára por aí.

Tivemos o prazer de participar da programação ao vivo da rádio, passando a nossa mensagem e opinião sobre os problemas locais, principalmente o da venda de votos.

Um mês antes das eleições, os candidatos passam a comprar por 5 reais de feira, sacos de arroz e milho, o voto dos moradores humildes e pouco instruídos...sem comentários...

De lá, levamos conosco algumas coisas: muitos amigos, muitas poesias, o medo de tomar chumbo nas costas de um "coronél arretado", um cd de repentes e um cd de música brega (doado pelo próprio cantor, que ouviu nossa entrevista na Rádio Comunitária).

Deixamos o sertão, a seca e o pó. O litoral paraibano, agreste de beleza indiscutível, onde "o sol nasce primeiro", aguarda a nossa chegada. Damos agora início a uma nova etapa do trabalho.