Um lugar da Hora !
Depois
de tanto olharmos para os famosos barcos de vela do nordeste,
e não termos sequer chegado a dar uma voltinha, tinhamos mesmo
que navegar com classe. Decidimos assim que a ida ao povoado
de Badaora e Mandacaru seria feita em uma dessas "lanchas" de
pesca, como eles chamam por aqui. Marcado o horário com os três
tripulantes, 10:00 hrs, de acordo com a maré enchente, o que
teoricamente facilitaria nossa ida, seguimos com todo nosso
equipamento para o Rio Preguiças.
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Todos a bordo, embarcamos nessa aventura. Talvéz a travessia com o
Troller fosse menos complicada...
Muitos camaleões, misturados ao forte vento, complicaram nossa travessia.
Por diversas vezes nossa tripulação desceu do barco, afroxou as velas,
desviou o curso. Pelo menos não viramos, como soubemos que acontecera
com outro grupo. Mas, como não poderia deixar de ser, curtimos muito
e aprendemos um pouco mais sobre a navegação rústica.
A vela desses barcos é protegida com um tingimento escuro proveniente
da raiz do mangue. Além da notável beleza obtida, esse líquido dá
uma certa resistência ao pano. Entretanto, quando ela rasga em alto-mar,
a técnica da espinha de peixe é utilizada pelos pescadores: trata-se
de costurar e remendar a vela com o auxílio de uma espinha de peixe
presa na linha.
Passado o sufoco, descemos em Badaora direto para a mercearia do Sr.
Chico. Numa rápida conversa com ele e sua esposa, Dna. Fia, acertamos
nossa mais nova família: " ó Luis, não tem problema vocês ficarem
lá em casa ... mas é muito simples, viu ?"
Com um peixe graúdo na mão, seguimos todos para uma das mais aconchegantes
casas de adobe dos últimos tempos. Francisco Rodrigues Xavier é um
daqueles pescadores que conseguiram algum status dentro da vila, montou
seu próprio negócio e hoje gerencia a venda de peixes comprados direto
dos pescadores mais simples. Sua família - filhos e netos - é maravilhosa.
Assim fomos recebidos no povoado; fartura do começo ao fim.
O curioso nome - Badaora - surgiu de uma vendinha que uma senhora
tinha na região. Localizado perto de um trapiche, seu barzinho era
conhecido como o Bar da Hora. Com o tempo, e o povoado formando em
volta, o nome pegou e até hoje chamam assim o local.
Muito mais rústico e "alguns anos atrás" que a vizinha Atins, em Badaora
encontramos pessoas como Sr. José Gomes, que aprendeu a construir
barcos olhando. Um dom de Deus ? Certamente, pois suas técnicas são
milenares. A maioria dos barcos de lá foram projetados por suas mãos.
De fato, aqui realizamos o sonho de comer novamente um bolo de tapioca
com côco e aprender sobre uma culinária um pouco mais aprimorada.
O Farol Preguiças, construído em 1940, é um outro espetáculo. Localizado
a 15 minutos de nossa casa, em Mandacarú, todas as noites vimos sua
luz iluminando a barra do rio e seus vilarejos. Por mais uma vez subimos
na cúpula e vimos de perto todos os procedimentos necessários para
fazê-lo funcionar. Um charme especial na mal iluminada vila.
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De
fato, seu Chico incorporou de tal forma nosso espírito aventureiro
que largou a mercearia nas mãos da esposa e partiu conosco trilhas
afora. Desta vez chegamos na Lagoa do Morro, conhecida apenas
pelos nativos mais íntimos. No caminho, água na cintura; equipamento
na cabeça. |
O melhor mesmo foi conhecer outro método de pesca: o da garrafa furada
com farinha. Nas águas cristalinas, e nas longas conversas com seu
Chico, sentimos mais uma vez a pureza da região.
Mas
nossas vidas não são somente água de côco a vontade e rede na
árvore com boas prosas. Fomos conhecer a Ilha do Farol, nas
"lamas da manguetown". Pedro Pires do Santos, o Pedão, e seu
pai, o Pedin, nos levaram para dentro do mangue aonde, com lama
dos pés a cabeça, aprendemos a tirar caranguejo.
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Uma
vida dura e difícil para estes brasileiros de mãos e pés cortados
por ostras, que procuram manter as famílias com a única profissão
que Deus lhes deu. Com óleo diesel no corpo, cabelos e rosto,
para proteção de macuim, temos vergonha de dizer o valor da
unidade do caranguejo vendido por eles aos donos de restaurantes.
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Mais um exemplo de luta pela sobrevivência da única família local
que vive dessa atividade.
Entretanto, o inimigo número
um dos catadores também têm sua vez: " época boa de catar ostra é
quando o caranguejo sai para brincar" - diz Pedin. Limpos novamente,
chegara a hora de partir. Seguimos em um barco pesqueiro a motor junto
a outros foliões da Vaquejada de Barreirinhas. Na viagem noturna,
sentimos a força da natureza ao olhar de longe a tempestade que atigia
o centro do deserto maranhense.
Fechamos a estadia nos Lençois visitando a Lagoa Bonita, na companhia
dos repórteres e amigos Valdemir Cunha, Luiz Gomes e Vanessa Cassas,
da Revista Viagem & Turismo.
Agora, olhando pelo espelho retrovisor do carro, sentimos o preço
caro que pagamos nessa jornada. A idéia de ver as cidades e vilas
pelo espelho enquanto o carro segue estrada, começa a apertar nossos
corações. A saudade das pessoas e lugares que conhecemos na Trilha
do Brasil aumenta a cada dia.
Quando retornaremos ? Quando nos veremos de novo ? Essas e outras
perguntas começam a incomodar nossas almas, que buscam em algum lugar
uma resposta.
" Deus lhe leve,
Deus lhe traga.
Deus o livre do perigo.
Apenas o que me acompanha,
É num ir junto contigo. "
Pedro Emídio - MA
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