Nas Cores do Maranhão
Nossos roteiros e planejamentos para um estudo no norte do Estado
do Maranhão se iniciaram há mais de um ano atrás, quando o amigo e
fotógrafo Rodrigo "Rhodes" Gontijo nos despertou, com um copinho de
Guaraná Jesus nas mãos, o grande potencial da região.
Mas ao pesquisar Barreirinhas, e ver com os próprios olhos o que nosso
amigo nos mostrava em seu trabalho "Cores do Maranhão", foi muito
diferente. Este Estado tem de fato um material incrível para o trabalho
que realizamos. "Mas então o Maranhão é pobre?" - nos indagaram. Não,
o Maranhão é simplesmente nativo. O Maranhão é puro e selvagem.
A
cidade de Barreirinhas se localiza no curso do Rio Preguiças,
que carinhosamente ganhou este nome devido a tranqüilidade das
águas até o oceano. Apesar do turismo estar aos poucos avançando
na região, Barreirinhas ainda conta com poucos pontos de hospedagem,
como a Pousada do Buruti. As ruas são praticamente de terra
e o acesso se dá através de estradas de piçarra. A partir daqui
é que se pode ingressar em alguns pontos dos Lençóis, diversos
dos que ingressamos com o comboio Troller.
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Assim
também seguimos nossa viagem, de mochilas nas costas, junto
aos outros 38 passageiros do barco popular "Simoni I". Apesar
das 4 horas necessárias para chegar ao destino, o tempo aqui
não nos fez cansar. Observando a tudo e a todos, este "ônibus"
nos levou ao paraíso. |
Uma verdadeira aula sobre a região contada pelos moradores mais remotos,
que vem de povoados distantes buscar em Barreirinhas o suporte que
não têm nas rancharias de verão.
Os barcos e os pequenos portos desses povoados também são um fato
a parte. Galinhas, comidas, farinha, gaiolas... O resto deixamos com
suas imaginações. No desembarque, o tranporte local - milhares de
jegues - aguardam cansativos o carregamento, junto aos familiares
e compradores que esperam seus parentes e encomendas.
Antônio
Carlos Buna, "o gordo", nos levou em Atins até a casa da Tia
Rita, sua família provisória. Visando um novo conceito e uma
nova forma de preservar o lugar, ele aguarda atenciosamente
a construção de seu Rancho. Enquanto isso, ficamos todos hospedados
junto a esta típica família de pescadores.
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Sr.
Pedro, marido de Rita, é adepto da pesca com caçoeira. Em sua
pesqueira, aonde dormíamos, pudemos acompanhar o seu dia-dia
como pescador local, sempre a caça do camurupim, o maior peixe
da região. Assim como outros, ele trabalha em uma "lancha" de
arrancheira junto a mais 5 pescadores e possui redes próprias
diversas, que garantem o peixe de cada dia. "Uma das minhas
caçoeiras chega a medir 28 braças..." |
Já as filhas de Rita e Pedro,
seguindo o exemplo da mãe em ganhar alguns trocados com hospedagem
rústica, passam as tardes produzindo e vendendo Din -Din, o sorvete
oficial e mania do nordeste. Por diversas vezes atacamos seu freezer
em busca de um gostinho de abacaxi, carambola, morango....
Mas a vida destes pescadores, apesar da mesa farta, não é fácil. "Tem
dia que a gente se arrepende até de ser vivo" - diz Pedro ao contar
suas experiências em alto-mar. Nos dias de arranchada, em que saem
para pescar por cerca de 60 dias sem retornar as casas, levam apenas
água, carvão, sal e uru. Em compensação, a recompensa é maior. Mas
quem realmente sofre são as mulheres: "se o tempo de voltar passa
e não temos notícias, sabemos que que eles se foram... Esse é o nosso
maior medo."
Escabriados mesmos ficam os moradores com as lendas do Atins. Aqui
já foram vistos lobisomens, visões e a cavala canga. Nossos amigos
"guias" que digam. As caminhadas até as dunas dos Lençois Maranhenses
foram recheadas de histórias fantásticas.
Mas o mais fantástico foi reencontrar esta maravilha que a natureza
nos proporcionou, desta vez com uma visão bem próxima do mar. As lagoas
verdes, azuis e agora douradas estavam lá. Mais um por do sol, mais
um lugar, mais dias inesquecíveis.
Ponta do Mangue, Santo Inácio, Atins, Alto Bonito, Badaora, Ilha do
Farol, Mandacarú e Caburé. Passamos nossos dias; purificamos nossas
almas. Lugares abençoados por Deus.
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