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Trilha Brasil e comboio Troller nos Lençóis Maranhenses


12 de Julho de 2000. Essa é a data de largada do grande e esperado passeio aos Lençóis Maranhenses. Foi neste dia, que deixamos Jericoacoara, na companhia do piloto off road e grande amigo Arnoldo Silveira, seguidos de mais dois Trollers, um ultraleve e um quadriciclo.

Assim como o Trilha Brasil, esses novos companheiros vindos de Curitiba, também embarcavam na 1ª Expedição Troller Verão (para quem não sabe, Julho é considerado verão nesta região), um passeio de 3 dias acampando nas areias fofas do grande deserto Brasileiro. Marcelo, Gustavo, Dioníso, Fabrício e Augusto, deixaram o frio do sul do país para seguirem juntos nessa aventura, e vivenciar uma das paisagens naturais mais belas existentes em nosso país.

Já no estado do Maranhão, na cidade de Barreirinhas, encontramos com o "Comboio Troller" e seus integrantes, num total de 14 jipes 4x4 mais o quadriciclo. Saímos cedo, pois só para atravessar o rio Preguiças, levamos mais de 2 horas. A pequena balsa manual suporta apenas 2 carros por vez, e enquanto os primeiros iam passando, os integrantes dessa jornada, muitos deles já velhos conhecidos das dunas do Cumbuco, iam se integrando e se divertindo na beira do rio.

Enquanto o comboio seguia por terra, passando por atoleiros, buracos, areia movediça e lamaçais, o piloto Augusto seguia pelo ar, levando com ele, a "Trilheira" Liliana, que delirou com a vista das dunas e a liberdade de voar num ultraleve.

Durante o percurso, de mais de 4 horas, várias situações típicas off road paravam o comboio. Atravessamos vários rios, de diferentes profundidades, lagos e muita lama. Foram carros atolados e rebocados, pneus furados, baterias arriadas... Mas no mundo off road, isso não significa nada mais do que pura adrenalina, muita aventura e solidariedade. O radiomador ligado durante todo o tempo, as trocas de informações entre os primeiros e os últimos carros, as conversas, as piadinhas... Ninguém fica na mão.

A visão das primeiras dunas, já deixa qualquer pessoa de queixo caído. As palavras somem da mente, e a areia invade o horizonte, sem fim, sem cerimônia. Enquanto os carros paravam a beira da lagoa onde o acampamento seria erguido, o ultraleve, desta vez com a Ana Elisa de co-pilota, sobrevoava os lençóis de água, numa visão indescritível.

As águas das chuvas formam lagos de águas límpidas e cristalinas entre as dunas. São milhares delas. Grandes, pequenas, com ou sem vegetação. Algumas plantinhas nascem no meio das águas, geralmente, nas lagoas mais fundas.

De lá de cima, é possível enxergar um oásis, uma concentração rara de plantas, mudando a cor branca predominante por apenas alguns metros, trata-se da Queimada dos Britos, um dos poucos povoados presentes no meio deste deserto.

O tempo incoberto não deixou a lua cheia mostrar a cara, nem no vôo noturno, onde, mesmo assim, o Luis teve o privilégio de ver as nuvens passarem de laranja a cor de rosa, num por do sol acanhado, e de rara beleza.

Tivemos a sorte e o azar de pegar uma chuva fora de época na região, o que deixou as milhares de "piscinas" naturais cheias de água fresca. Sorte pelo maravilhoso visual.

Azar dos acampantes. A chuva torrencial que caiu durante toda a noite, alagou muitas barracas (inclusive a nossa), e obrigou alguns a apelar aos bancos do carro, colchão desconfortável, mas que salvou muitos de uma noite infernal.

Nem os xixis foram poupados. A garota Bárbara que o diga...a pedido de sua mãe Silvana, para não sair na chuva, foi mirar no canequinho, mas o sono foi maior e a mira saiu errada, obrigando os integrantes da barraca a passarem o resto da noite molhados pela segunda vez.

Mesmo com o tempo incoberto, o calor nos levou a vários banhos e caminhadas pelas dunas, e nos motivou a um magnífico passeio de jipe até onde o deserto literalmente vira mar. Por causa das chuvas, nós tivemos a oportunidade de ver um espetáculo da natureza que só ocorre de vez em quando, quando os lençóis estão realmente cheios de água. Esse fenômeno, mais conhecido como "bonzinho", acontece quando um dos lençóis d'água rompe a areia fazendo um caminho até desembocar no mar, formando uma extensa cachoeira, que corre sobre os recifes da praia até tocar o oceano.

Mergulhando a cabeça por baixo da queda, é possível ver a água caindo como se fosse uma cortina, bem a nossa frente, numa visão alucinante, indescritível. Com mais chuva caindo, o caminho da volta se tornou ainda mais empolgante. Quem pode descrever tal fato, é o nosso amigo e companheiro Chico Barreto, profundamente atolado nas "areias malediças", como ouvimos pelo rádio durante seu árduo reboque...

Depois de um enorme churrasco de picanha e arroz Blue Ville, almoço perfeito aos participantes da trilha, começamos a arrumar as coisas para a volta. Com tanta chuva, tudo estava molhado, e acabou sendo um trabalho em dobro aos trilheiros aventureiros do Troller Verão...

Acabamos saindo ao entardecer, e resolvemos que não pegaríamos a trilha difícil, e sim, depois de atravessar as dunas, uma pequena estradinha em chão batido. E, foi nesse trecho, que recebemos a notícia do falecimento do mecânico e piloto da Troller, Beto Salles, durante um percurso do Rally dos Sertões.

Se o pouco tempo nos fez reclamar e se a chuva nos fez praguejar contra a natureza, essa notícia nos fez repensar sobre os nossos valores.

Fica aqui, em nome do Trilha Brasil e de todos que acompanharam a Expedição Troller Verão, e que de alguma forma tiveram algum contato com esse excelente piloto, nossos sinceros pesares. São nessas horas, que percebemos como a vida é frágil, e justamente por isso, não podemos deixar de aproveitar e curtir cada detalhe e cada momento ao lado das pessoas que gostamos e admiramos.