Jericoacoara - 10 de julho
| "Jacaré
quarado ao sol." E que sol! Esse é o significado de Jericoacoara.
Enquanto no sul do Brasil o inverno faz nevar, aqui o mês de
julho é o primeiro do verão, quando as chuvas cessam, e se estende
até o fim do ano. Jeri cresceu como ponto turístico desde que
saiu em jornais estrangeiros como uma das praias mais bonitas
do Brasil. Mas casas de nativos ainda persistem no meio das
pousadas e restaurantes. |
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Fomos convencidos pelo guia
mirim Antônio de que precisávamos dele se quiséssemos nos aventurar
pelos povoados ao redor da cidade. Coberto de razão, foi um dos melhores
guias que já tivemos na viagem.
No primeiro dia nos levou num povoado interessantíssimo, chamado Tatajuba,
um distrito de Camocin. É conhecida por ser parecida com o que era
Jeri há 15 anos atrás.
Os moradores não querem o mesmo destino para seu vilarejo e proíbem
a venda de casas e terrenos a quem deseja desenvolver o turismo aqui,
sob pena de banir o proprietário do lugar. É uma Área de Proteção
Ambiental (APA) e a Associação de Moradores em conjunto com o Ibama
fazem palestras para a população sobre Gestão Ambiental e Desenvolvimento
Sustentável.
Não querem pessoas de fora no vilarejo pois estas constroem pousadas
e restaurantes mais sofisticados que os dos nativos e tiram seus clientes.
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Parada
para uma água de coco na barraquinha de palha de buriti da Dona
Delmira, uma das primeiras moradoras (moradeiras, como disse
Antônio) de Tatajuba. Fica estrategicamente localizada ao lado
das ruínas da Velha Tatajuba, povoado que foi tomado pelas dunas. |
Ela nasceu em Jijoca e foi para Tatajuba há 24 anos. Em 15 anos viu
a cidade ir desaparecendo na areia, por volta de 150 casas. A maior
parte dos moradores formou o que hoje é a atual Tatajuba.
A duna que cobriu o povoado ganhou nome, Morro Branco, e virou lenda.
Dizem hoje que ela é encantada por causa de um navio que lá empancou
(v. dicionário) e foi coberto pela areia. Em noites sem lua, alguns
nativos enxergam luzes em cima do morro, como se fossem as luzes do
navio.
O pescador José Nilson Carneiro de Souza, 28 anos, assistiu de camarote
a cidade ser invadida pela areia. Ele já morava no que hoje se tornou
Tatajuba, antes chamada Cabaceira. Segundo ele, a duna é encantada
não por causa do navio, mas sim pelo espírito de uma princesa. Para
desencantar, deve-se cortar a ponta do dedo de uma criança e fazer
um símbolo de salomão, uma estrela de cinco pontas, que ele chama
de "cinco salamão", em cima da duna.
Lendas à parte, contou um pouco sobre sua vida de pescador. Não difere
muito de todos os que já cruzaram o nosso caminho. Aqui eles também
são adeptos da Marambaia, como os pescadores de Fortaleza. Também
se balizam pelas serras para achar os pesqueiros.
Existe apenas um atravessador, dono de todo o material da pesca. Por
este motivo, o pescador tem que vender todos os peixes exclusivamente
a ele, que transporta tudo para a cidade de Camocin.
A pesquisa
continuou na Vila Preá, distrito de Cruz. Conversamos com pescadores
que estavam tirando sardinha da rede de rengai (v.d.), Joaquim
Carvalho dos Santos e Geraldo Pires. Pescam sardinha com o barco
de um amigo e dão 10% de comissão do que é vendido. A sardinha
vale R$ 0,25 por kg.
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O filho do Geraldo já pensou em ir pra São Paulo, mas desistiu ao
ver tanta violência pela televisão. Esses programas sensacionalistas,
como o Jornal do Leão, por exemplo, tem uma audiência muito grande
no Nordeste e acabam contribuindo para brecar um pouco a migração
para lá.
Contaram sobre a Regata de São José, o padroeiro da cidade. Acontece
há 5 anos, todo dia 19 de março e é uma festa que reúne milhares de
pessoas. É a única que eles fazem no ano, nem São João tem, mas é
grandiosa. Fazem procissão de dia e festa à noite, com bandas que
vem de Fortaleza. Os barcos são patrocinados pelo prefeito de Cruz
e por empresas como a Caixa Econômica e pequenos negociantes locais:
donos de farmácias, loja de móveis e fábrica de gelo.
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Esse
tipo de regata acontece em todo litoral do nordeste e é um dia
de glória para o pescador, quando ele sai do lugar-comum e vira
um desportista, muitas vezes saindo até na televisão. Orgulham-se
de seus barcos bem preparados e assim que termina a festa, não
vêem a hora de chegar a do próximo ano. |
Geraldo acendeu um cigarro da
marca Corcel e contou sobre o Camorin, um peixe branco utilizado pela
culinária japonesa, que só dá no mês de março, é o mais caro que eles
vendem, 5 reais o kg. O peixe é levado para Fortaleza e exportado
para o Japão. Na época de sua pescaria, chegam a passar 5 dias em
alto mar, dormindo 3 pescadores na canoa. O perigo é constante. Lanchas
e navios cruzam o mar e não enxergam o barco, partindo-os ao meio.
Contou que muitos já morreram dessa forma.
O dia encerrou com chave de ouro, na duna do por do sol de Jeri, que
pode ter sido invadida por estrangeiros e turistas, mas não perderá
o encanto de suas dunas ao lado do mar.
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