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A caminho de Canudos


Nossa passagem por Monte Santo deu início à busca da história da Guerra de Canudos, de Antônio Conselheiro e suas pregações.

Monte Santo, uma cidadezinha de 50 mil habitantes, limite do desconhecido por todos nós, foi palco real da guerra, servindo por 3 vezes como base oficial para os militares, antes e durante o início das invasões contra Canudos de 1896.

Além disso, possui um outro ponto interessante. Uma peregrinação de mais ou menos 3 km a uma Igreja chamada Santa Cruz, numa caminhada dura, ao som do cascalho, passando por 25 capelinhas (reformadas por Antônio Conselheiro). Datada de 1775, ainda hoje, é o local de inúmeras festas e romarias.

De cima do Monte, tem-se uma visão 360 graus da Bahia e de todo o interior do Brasil. O limite do verde e do marrom; o limite do racional e do irracional. Dizem ainda que dentro do morro passa um lençol d'água repleto de ouro, que não pode ser perfurado sob pena de uma terrível maldição contra a cidade.

Dali, avista-se a terra de Lampião, Luiz Gonzaga e "Padinho" Ciço. Trata-se de um verdadeiro portal. Também há um pequeno Museu que conta e mostra um pouco do sertão baiano.

Como Conselheiro, o povo daqui continua fanático. Alguns fatos estranhos aconteceram durante nossa estadia: primeiro Sr. Wilson, músico local, quase chamou a polícia para nos procurar no Monte, pois estávamos lá fazia cerca de 4 hrs. Depois foi o dono do bar, o padre que tocou música às 5 hrs da manhã no sábado, dentre outros acontecidos extremistas engraçados...

Já com Dona Mariquinha a coisa foi bem diferente. Moradora da parte mais pobre e esquecida de Monte Santo, também chamada de "Rua dos Urubus", ela nos recebeu sempre de braços abertos, tanto para abençoar a dor de garganta da Lico como para nos mostrar um pouco dos cantos e rezas da peregrinação. Foi uma aula de vida.

Seguimos para Massacará, uma vila fundada por uma missão de padres presbiterianos de 1689, uma espécie de comunidade distante 35 Km do município de Euclides da Cunha.
Ficamos hospedados na casa de Seu Lió e Dna. Sandra, nascidos e criados por lá. Nesta vila, tivemos os primeiros contatos com a historia de Antônio Conselheiro, pelas palavras do Sr. Antônio de Isabel, 108 anos, que mesmo doente, ainda se lembra das realidades do passado longínquo, quando conheceu o Conselheiro.

Alí, num pequeno pedaço do sertão, também tivemos o desprazer de presenciar de perto uma outra fatalidade que vem acontecendo com os moradores, inclusive com a nossa família anfitriã.

Eles, assim como mais de 40 antigas famílias da região terão que abandonar as suas casas, sem recebimento de qualquer indenização, a mando dos índios "brancos" que dizem ser os donos da terra. O ultimato para largar tudo e sair, varia de 2 horas a 1 semana. Ninguém faz nada. E eles saem da casa para a rua...

Com o tempo chuvoso, resolvemos parar em Euclides da Cunha, para conversar com Seu Ioiô, senhor falante, de 91 anos completos mês passado, casado com Dna. Isabel, que nos contou a história de Canudos completa, num depoimento de mais de 3 horas.

Seu estudo do passado, durou dos 15 aos 40 anos e serviu de base para muitos filmes e documentários sobre a região.

Agora seguimos, enfim, para o Belo Monte, nome da antiga Canudos de 1890.