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Atravessamos o Velho Chico - BA/ PE


Os moradores de Canudos afirmaram que este ano não haverá seca. Se o que vemos pela janela do carro é a fase de fartura, imaginar como é a fase ruim chega a arrepiar. Onde existia um largo rio, quando muito há pequenas poças de água barrenta onde os bodes vão saciar a sede.

A população usa dessa água e quando acaba pagam caro por galões.

Passamos por pontes grandes, com nome do engenheiro numa placa e tudo, sem um pingo de água por baixo. O curioso é que os campos estão verdes, o que prova a existência de água embaixo da terra.

A vegetação é rude. Retorcida e espinhuda, defende-se do clima hostil do sertão. Ao tocar numa planta chamada favela, seu espinho injeta um veneno que chega a doer, dando a impressão de uma picada de inseto.


Foi ela que deu origem ao termo do aglomerado de casebres das cidades, por causa das casas construídas durante a guerra em Canudos, com o mesmo aspecto. A única planta que parece conseguir suportar o clima durante o ano inteiro é o cacto. Mandacarus cobrem as montanhas.

Saindo de Canudos a estrada ainda é boa, mas passando a cidade de Formosa uma placa decreta: "Fim do Asfalto". Fim também do sonzinho no carro e início da estrada com poeira, do treme-treme nas pedras, do calor de rachar o chão. A estrada é delimitada com arbustos.

Incomoda ver o povo sofrendo com a falta d'água ao lado de um dos maiores rios do País. Cruzamos o Velho Chico e entramos em Pernambuco pela cidade de Belém do São Francisco.

Alertados em razão do alto índice de assaltos na região, paramos para conversar com os militares na entrada da cidade, para perguntar se havia algo que poderíamos fazer para evitá-los. "A primeira providência é ter fé em Deus" - respondeu prontamente o Sub-Tenente Vieira. Apontou as serras no horizonte e disse que toda a região está repleta de plantações de maconha.

Os assaltantes levavam até a roupa do corpo da vítima, mas depois que a polícia militar passou a agir na região, a situação melhorou bastante.

A polícia de Pernanbuco é calejada. Depois de terem enfrentado Virgolino Ferreira, vulgo Lampião, agora tem um inimigo melhor armado. A população preferia o tempo do cangaço.

Sobre esse assunto, conversamos em Carqueja, com João Gomes de Lira, 87 anos tenente reformado do Exército que entrou na força com 18 anos para perseguir Lampião. Mesmo tendo curso primário incompleto, escreveu o livro "Lampião - Memórias de um Soldado de Volante", com 2 volumes.



Em Serra Talhada, onde nasceu o cangaceiro, fomos recebidos por um primo de João Gomes, também tenente reformado, Davi Jurubeba. Um senhor de 98 anos com muitas histórias pra contar durante seus 8 anos de caça a seu conterrâneo inimigo.